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PRINCIPAIS CUIDADOS NO CULTIVO, MANIPULAÇÃO E CONSUMO DE PLANTAS MEDICINAIS. ERROS E PROBLEMAS MAIS COMUNS.

Trabalho elaborado pelos Acadêmicos: Alberto Leonor Oliveira Brito, Diana Ferreira Soares da Paixão, Luciano Carvalho dos Reis, Maiana Figueredo Santos, Roberta Maria Carvalho de Carvalho, Sabrina de Souza Ribeiro, em Salvador (BA), 29 de novembro de 1999.

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA INSTITUTO DE FARMÁCIA - Departamento de Farmacognósia
DISCIPLINA FAR 100 – Farmacognósia  I
PROFESSOR: Eudes da Silva Velozo

SUMÁRIO

1.Introdução
2.Cuidados no cultivo de plantas medicinais
3.Manipulação de plantas medicinais
4.Deterioração das drogas
5.Controle de qualidade
6.As origens do uso popular de plantas medicinais
7.Conclusão
8.Referências bibliográficas

1 - INTRODUÇÃO

Há muito tempo, as plantas medicinais têm sido usadas como forma alternativa ou complementar aos medicamentos da medicina tradicional. Estas são amplamente comercializadas em farmácias e supermercados em geral, por razões sociais ou econômicas. A crise econômica, o alto custo dos medicamentos industrializados, o difícil acesso da população à assistência médica e farmacêutica são possíveis fatores que levaram as pessoas a utilizar produtos de origem natural.

O uso das plantas medicinais tem que ser feito cuidadosamente, com muito critério, pois as mesmas não fazem milagres e podem levar à intoxicação daqueles indivíduos que desconhecem precauções e contra-indicações destas plantas. Às vezes se imagina que o produto, por ser natural, faz bem à saúde, mas a ignorância do conhecimento sobre os efeitos desejados ou não, pode ser desastroso.

Neste trabalho serão abordados os cuidados no cultivo, manipulação e consumo das plantas medicinais, juntamente com os erros e problemas mais comuns na sua utilização, visando um maior conhecimento das pessoas em relação ao modo adequado de plantá-las, colhê-las e usá-las para o bem estar comum.

2 - CUIDADOS NO CULTIVO DE PLANTAS MEDICINAIS

Para iniciar uma horta medicinal, precisamos selecionar as espécies e identificar corretamente as plantas. Uma horta medicinal, por certo, deverá produzir, satisfatoriamente, ervas que podem ser usadas na culinária, temperos e aquelas de uso de rotina para o tratamento de doenças mais comuns do organismo. Tão logo sabemos o que plantar e por que plantar, devemos agora saber onde plantar uma horta medicinal.

1.LOCAL
O local a ser escolhido para implantação de uma horta medicinal deverá ter água disponível em abundância e de boa qualidade, e ser ainda exposto ao sol, principalmente pela manhã.

2.SOLO
O solo deve ser leve e fértil para que as raízes tenham facilidade de penetrar e desenvolver. Tendo disponibilidade é bom fazer a análise do solo, principalmente se tratando de horta comercial.
Quanto ao aspecto físico do solo, pode ser melhorado, no seu preparo, incorporando no mesmo, esterco e/ou composto orgânico, onde fornecerá nutrientes que ajudarão a reter a umidade. A correção do solo pode ser feita com calcário. Ainda podemos também adubá-lo com um produto natural: o húmus.
Certas espécies exigem solos úmidos como é o caso do chapéu-de-couro, cana-de-macaco, etc. Outras já gostam de terrenos areno-argilosos, com umidade controlada que é o caso de cará, bardana, alecrim, etc.
a) MÉTODOS DE PROPAGAÇÃO
è Propagação Sexuada
Sementes
Sementeira/Transplante
Semeadura direta
è Propagação Assexuada ou Vegetativa
Estacas de folhas
Estacas de caule
Estacas de raízes
Bulbos
Rizomas
Filhotes ou rebentos
Divisão de touceiras
b) PREPARO DO SOLO
Primeiramente, fazemos uma limpeza geral da área, e a seguir revolvemos o solo com enxadão, pá-reta ou arado (mecanizado ou tração animal).
A declividade da área é um fator de grande importância, pois se a mesma apresentar esta característica, devemos planejar antes a distribuição das espécies e a formação dos canteiros a fim de evitar a erosão. Como por exemplo, podemos citar o plantio de capim-limão em curva de nível onde o mesmo transforma-se numa faixa de retenção. Os canteiros e covas por sua vez também devem obedecer sua confecção em curvas de nível.
Iniciamos a formação das sementeiras e canteiros, com as seguintes dimensões: 1 a 1,2 m de largura e 0,2 m de altura. Nas sementeiras, vale lembrar que a terra deve ser bem fofa, e as sementes podem ser cobertas com areia bem fina ou terra coada. As covas que serão feitas para plantio de algumas espécies, devem ter 30 cm de largura x 30 cm de comprimento e 30 cm de fundura.
c) ADUBAÇÃO 
É recomendável realizar a fosfatagem, com fosfatos naturais para corrigir a deficiência de fósforo típica dos solos brasileiros. De uma maneira geral, pode-se usar 150g de fosfato/m²/canteiro.
Uma adubação equilibrada é a chave para a obtenção de plantas mais resistentes a pragas e doenças também com maiores teores de fármacos, sem comprometer a produção de massa verde.
Para fazer a correção básica do solo recomenda-se usar 150g de calcário/m²/canteiro. O esterco de bovino é colocado na proporção de 6 a 101/m²/canteiro e esterco de galinha de 2 a 3 litros/m²/canteiro, estes devendo estar totalmente curtidos. Podemos acrescentar 2 litros de húmus/m²/canteiro. Em covas deve-se colocar 1/4 das dosagens recomendadas/ m² para cada canteiro. Nas sementeiras a adubação é a mesma dos canteiros.

3.PRAGAS E DOENÇAS
As espécies medicinais normalmente apresentam alta resistência ao ataque de doenças e pragas, mas, por algum desequilíbrio, este pode ocorrer em níveis prejudiciais. Num ambiente equilibrado, com plantas bem nutridas, a possibilidade de ataque diminui. O uso de produtos químicos (agrotóxicos) é condenado para o cultivo de espécies medicinais. Isto se justifica pela ausência de produtos registrados para estas espécies, conforme exigência legal, e pelas alterações que tais produtos podem ocasionar aos princípios ativos. Tais alterações vão desde a permanência de resíduos tóxicos sobre as plantas até a veiculação de metais pesados como o cádmio e o chumbo. Se para os alimentos já se buscam alternativas para evitar o uso de produtos tóxicos, para a produção de fitoterápicos a atenção deve ser redobrada. Podemos citar como exemplos destas alterações o uso de afalon (linuron) em camomila, que alterou significativamente a concentração dos princípios ativos da flor, segundo pesquisa feita por REICHLING (1979). Testes realizados por STARR et. al. (1963) mostram que o uso de inseticidas/fungicidas em menta deixam resíduos tóxicos nos seus óleos essenciais.
a) PRAGAS
Ácaros Formigas Nematóides
Bactérias

Fungos

Percevejos
Besouros Lagartas Pulgões
Cachonilhas Lesmas Vírus

b) CONTROLE DE PRAGAS E DOENÇAS
Seleção de área de cultivo Manejo do solo
Rotação de culturas Plantio na época correta
Plantio com espaço adequado Consorciação
Usar sementes,mudas e estacas de plantas sadias

Uma área grande de plantas da mesma espécie pode facilitar o surgimento e rápido desenvolvimento de pragas e doenças específicas. A consorciação de duas ou mais espécies reduz este risco. É necessário, entretanto, fazer um planejamento desta consorciação por causa dos efeitos alelopáticos (ação de uma espécie sobre o desenvolvimento da outra). Quando não há informações sobre o efeito da consorciação ela deve ser testado primeiro em uma pequena área. Abaixo vemos alguns exemplos de associações benéficas e associações que devem ser evitadas:
Alfavaca: seu cheiro repele moscas e mosquitos. Não devem ser plantadas perto da arruda.
Funcho: em geral não se dá bem com nenhuma outra planta.
Cravo-de-defuntos: protege as lavouras dos Nematóides. Aparentemente não é prejudicial a nenhuma outra planta.
Hortelã: seu cheiro repele lepidópteros tipo borboleta-da-couve podendo ser plantada como bordadura de lavouras. Exige atenção pois se alastra com facilidade.
Manjerona: melhora o aroma das plantas.
Alecrim: mantém afastados a borboleta-da-couve e a mosca-da-cenoura. É planta companheira da sálvia.
Catinga-de-mulata: seu aroma forte mantém afastados os insetos voadores. Pode ser plantada em toda área.
Tomilho: seu aroma mantém afastada a borboleta-da-couve.
Losna: como bordadura, mantém os animais fora da lavoura, mas sua vizinhança não faz bem a nenhuma outra planta; mantenha-o um pouco afastado.
Mil-folhas: planta-se com bordadura perto de ervas aromáticas; aumenta a produção de óleos essenciais.
Arnica brasileira: inibe a germinação de sementes de plantas daninhas.

3 - MANIPULAÇÃO DE PLANTAS MEDICINAIS

1.DETERMINAÇÃO DO PONTO DE COLHEITA  
O primeiro aspecto a ser observado na produção de plantas medicinais de qualidade, além da condução das plantas, é sem dúvida a colheita no momento certo. As espécies medicinais, no que se refere à produção de substâncias com atividade terapêutica, apresentam alta variabilidade no tempo e espaço. O ponto de colheita varia segundo órgão da planta, estágio de desenvolvimento, época do ano e hora do dia.
A distribuição das substâncias ativas, numa planta, pode ser bastante irregular. Assim, alguns grupos de substâncias localizam-se preferencialmente em órgãos específicos do vegetal. Os flavonóides, de uma maneira geral, estão mais concentrados na parte aérea da planta. Na camomila (Chamomila recutita), o camazuleno e outras substâncias estão mais concentradas nas flores. Vê-se, portanto, a necessidade de conhecimento da parte que deve ser colhida para que se possa estabelecer o ponto ideal.
O estágio de desenvolvimento também é muito importante para que se determine o ponto de colheita, principalmente em plantas perenes e anuais de ciclo longo, onde a máxima concentração é atingida a partir de certa idade e/ou fase de desenvolvimento. Por exemplo, o jaborandi (Pilocarpus microphyllus) apresenta baixo teor de pilocarpina (alcalóide) quando jovem. O alecrim (Rosmarinus officinalis) apresenta maior teor de óleos essenciais após a floração, sendo uma das exceções dentre as plantas medicinais de um modo geral.
Há uma grande variação na concentração de princípios ativos durante o dia: os alcalóides e óleos essenciais concentram-se mais pela manhã, os glicosídeos à tarde. As raízes devem ser colhidas logo pela manhã.
A época do ano também parece exercer algum efeito nos teores de princípios ativos, assim a colheita de raízes no começo do inverno ou no início da primavera (antes da brotação), são citados como melhores épocas. As cascas são colhidas quando a planta está completamente desenvolvida, ao fim da vida anual ou antes da floração (nas perenes). Nos arbustos, as cascas são separadas no outono e, nas árvores, na primavera. No caso de sementes recomenda-se esperar até o completo amadurecimento; no caso de frutos deiscentes (cujas sementes caem após o amadurecimento), a colheita deve ser antecipada. Os frutos carnosos, com finalidade medicinal, são coletados completamente maduros. Os frutos secos, como os aquênios, podem cair após a secagem na planta, por isso recomenda-se antecipar a colheita, como ocorre com o funcho (Foeniculum vulgare).
Deve-se salientar que a colheita das plantas em determinado ponto tem o intuito de obter o máximo teor de princípio ativo. No entanto, na maioria das vezes, nada impede que as plantas sejam colhidas antes ou depois do ponto de colheita para uso imediato. O maior problema da época de colheita inadequada é a redução do valor terapêutico e/ou predominância de princípios tóxicos, como no confrei (Symphitum ssp.).
Existem alguns aspectos práticos que deveremos levar em consideração, no processo de colheita de algumas espécies:
Na melissa, cortamos seus ramos e não somente colhemos suas folhas. Desta forma conseguimos uma produção em torno de 3 t/ha de matéria seca, em cortes, que são efetuados no verão e outono.
No poejo, temos que ser cuidadosos, pois é uma erva rasteira. Com essa característica, poderá trazer-nos prejuízos pela contaminação do material, que sendo colhido muito próximo do solo, terá muitas impurezas. Produz aproximadamente 2 t/ha de matéria seca em três cortes anuais.
No boldo (Necroton), devemos colher somente as folhas, com bom estágio de desenvolvimento. Desidratadas, produzem cerca de 2,5 t/ha.
Na carqueja devemos cortar totalmente sua parte herbácea, respeitando dois nós acima da superfície do solo. Esse procedimento favorecerá, posteriormente, a rebrota das plantas. Produz cerca de 2 t/ha de planta seca, em duas a três colheitas por ano. O ponto ideal é no início da floração.
No capim limão, fazemos também o corte total, e procedemos como a colheita da carqueja. Devemos eliminar as folhas doentes, com manchas ou secas, que são inadequadas para o beneficiamento. Produz cerca de 3 t/ha de matéria seca em dois cortes por ano.
No quebra-pedra, colhemos a planta inteira. Suas raízes, podem ser lavadas em água limpa. Produz cerca de 3 t/ha de matéria seca em duas safras anuais.
Na camomila, colhemos as flores em várias passadas. Devem apresentar seus capítulos florais completos. Sua produção varia em torno de 600 a 800 kg/ha de flores secas, em uma única safra.
a) PARTE COLHIDA E PONTO DE COLHEITA
Talos e folhas: antes do florescimento
Flores: no início da floração
Frutos e sementes: quando maduros
Raízes: quando a planta estiver adulta
Casca e entrecasca: quando a planta estiver florida
b) OPERAÇÃO De COLHEITA
Uma vez determinado o momento correto, deve-se fazer a colheita com tempo seco, de preferência, e sem água sobre as partes, como orvalho ou água nas folhas. Assim, a melhor hora da colheita é pela manhã, logo que secar o orvalho das plantas.
O material colhido é colocado em cestos e caixas; deve-se ter o cuidado de não amontoá-los ou amassá-los, para não acelerar a degradação e perda de qualidade. Deve-se evitar a colheita de plantas doentes, com manchas, fora do padrão, com terra, poeira, órgãos deformados, etc.
Durante o processo de colheita é importante evitar a incidência direta de raios solares sobre as partes colhidas, principalmente flores e folhas. As raízes podem permanecer por algum tempo ao sol.Um ponto mais importante, para a qualidade, é a anotação dos dados referentes às condições no momento da colheita, condução da lavoura, local, produtor, condições de secagem, etc. Imediatamente após a colheita, o material deve ser encaminhado para a secagem.
c) PROCESSAMENTO PÓS-COLHEITA
Normalmente, após a colheita das plantas, pode-se fazer o uso direto do material fresco, extrair substâncias ativas e aromáticas do material fresco ou a secagem para comercialização "in natura", a qual requer mais atenção, por permitir a conservação e possibilitar a utilização das plantas a qualquer tempo e não somente quando atingirem o ponto de colheita.

2.SECAGEM
O consumo de plantas medicinais frescas garante ação mais eficaz dos princípios curativos, Entretanto, nem sempre se dispõe de plantas frescas para uso imediato, e a secagem possibilita conservação quando bem conduzida.
No beneficiamento de plantas medicinais são utilizados vários processos. Dependendo da espécie e da forma de comercialização, esses processos são utilizados diferencialmente. Por exemplo, as mentas podem ter as folhas dessecadas ou o óleo essencial comercializado, duas condições que exigem metodologias diferentes. A maioria das plantas medicinais é comercializada na forma dessecada tornando o processo de secagem fundamental para a qualidade final do produto. A redução do teor de água durante a secagem impede a ação enzimática e a conseqüente deterioração. O órgão vegetal, seja folha, flor, raiz, casca, quando recém colhido  apresenta-se com elevado teor de umidade e substratos, o que concorre para um aumento na ação enzimática, que compreende diversas reações. Estas reações são reduzidas à medida que se retira água do órgão, pois a redução de umidade do meio é o melhor inibidor da ação enzimática. Daí a necessidade de iniciar a secagem imediatamente após a colheita. A secagem reduz o peso da planta, em função da evaporação de água contida nas células e tecidos das plantas, promovendo o aumento percentual de princípios ativos em relação ao peso inicial da planta. Daí dever-se utilizar menor quantidade de plantas secas do que frescas. No entanto, esta percentagem varia com a idade da planta e condições de umidade do meio.
a) CUIDADOS QUE ANTECEDEM A SECAGEM
Antes da secagem, deve-se adotar alguns procedimentos básicos para a boa qualidade do produto, independente do método de secagem a ser utilizado. Os mais importantes são:
Não se deve lavar as plantas antes da secagem, exceto no caso de raízes e rizomas que devem ser lavados. Caso a parte aérea das plantas esteja muito suja, usa-se água limpa para uma lavagem e efetua-se uma agitação branda dos ramos logo em seguida para eliminar a maior parte da água sobre a superfície da planta. A lavagem da parte aérea deve ser rápida para evitar a perda de princípios ativos.
Deve-se separar as plantas de espécies diferentes.
As plantas colhidas e transportadas ao local de secagem não devem receber raios solares.
Antes de submeter as plantas à secagem, deve-se fazer a eliminação de impurezas (terra, pedras, outras plantas, etc.) e partes da planta que estejam em condições indesejáveis (sujas, descoloridas ou manchadas, danificadas...).
As plantas colhidas inteiras devem ter cada parte (folhas, flores, sementes, frutos e raízes) colocadas para secar em separado e conservadas depois em recipientes separados.
Quando as raízes são volumosas, pode-se cortá-las em pedaços ou fatias para facilitar a secagem, como se faz em batata-de-purga (Operculina macrocarpa).
Para secar as folhas, a melhor maneira é conservá-las com seus talos, pois isto preserva suas qualidades, previne danos e facilita o manuseio. Folhas grandes devem ser secas separadas do caule. Nas folhas com nervura principal muito espessa, como alcachofra (Cynara scolymus), estas são removidas para facilitar a secagem.
b) MÉTODOS DE SECAGEM
a secagem pode ser conduzida em condições ambientes ou artificialmente com uso de estufas, secadoras, etc. Dependendo do método utilizado e do órgão da planta a ser dessecado, têm-se uma necessidade de área útil do secador variável entre 10 e 20% da área colhida.
è Secagem natural
a secagem natural é um processo lento, que deve ser conduzido à sombra, em local ventilado, protegido de poeira e do ataque de insetos e outros animais. Este processo é recomendado para regiões que tenham condições climáticas favoráveis, relacionadas principalmente a alta ventilação e temperatura, com baixa umidade relativa. É o mais usado a nível doméstico.
i secador de temperatura ambiente é o modelo mais econômico e dá bons resultados em climas secos e quentes quando na época da colheita e secagem isto porque só conta com a temperatura ambiente local. Constitui-se numa construção retangular com um telhado de duas águas, o que lhe dá a aparência de uma casa retangular. Dentro, deve conter estruturas de madeira ou metal, onde se apoiam as plantas em feixes ou em bandejas. Deve-se espalhar o material a ser seco em camadas finas, permitindo assim a circulação de ar entre as partes vegetais, o que favorece a secagem mais uniforme. Em geral, a espessura da camada de plantas na secagem é de 3 cm para folhas e 15 a 20 cm para flores e unidades floridas. Para isto podem ser utilizadas bandejas com molduras semelhantes. Deve-se evitar o revolvimento do material durante o processamento de secagem. Quando a secagem é muito lenta, pode-se fazer cuidadosa movimentação das plantas sobre as bandejas, evitando-se danos, principalmente se o material está muito úmido. Outra maneira prática é dependurar as plantas em feixes pequenos amarrados com barbante. Os feixes devem ficar afastados entre si. Este método não é adequado para plantas cujas folhas caem durante a secagem, como o manjericão.
As plantas secas nestas condições vão ter um teor de umidade em equilíbrio com a umidade relativa do ambiente. Se esta for baixa, tanto menor vai ser o teor de umidade ao final da secagem, o que melhora a conservação do material seco.
è Secagem artificial
a secagem artificial consiste em manter sob ventilação a uma temperatura de 35 a 40º C. As temperaturas acima de 45º C danificam os órgãos vegetais e seu próprio conteúdo, pois proporcionam uma "cocção" das plantas e não uma secagem, apesar de inativarem mais rapidamente as enzimas.Esta secagem origina um material de melhor qualidade por aumentar a rapidez do processo.
Para a secagem de plantas medicinais com fins de comercialização utilizam-se basicamente três tipos de secadores: o secador de temperatura ambiente (já descrito anteriormente), o secador de temperatura e umidade controlada e os secadores especiais. O "secador de temperatura e umidade controlada" é conhecido por "estufa" e tem o formato semelhante ao anterior, diferindo por ser mais fechado e possuir uma pequena fornalha externa que é recomendada para locais de clima frio e chuvoso ou para dessecação de órgãos carnosos e/ou suculentos.
O uso de forno de microondas também é uma alternativa para secagem das plantas. As folhas mais tenras e suculentas levam cerca de 3 minutos na secagem, e as ervas com folhas pequenas, mais secas, apenas 1 minuto. Por esse método preserva-se a cor e aroma das folhas.
Uma outra alternativa que vem sendo testada, nas instalações do “Grupo Entre Folhas”, é o secador onde se altera somente a umidade relativa do ar. Utiliza-se um aparelho que reduz a umidade relativa a níveis preestabelecidos, secando as plantas mais facilmente e em menor tempo. O aparelho elétrico, conhecido como desumidificador, fica dentro de uma sala, vedada contra a entrada de ar úmido, luz e poeira. Dentro desta sala, ficam bandejas de madeira, com fundo em tela plástica branca, sobres as quais são colocadas as plantas colhidas. Este sistema é razoavelmente simples, pois envolve o uso de um só equipamento que permite a secagem rápida das plantas, quando a umidade relativa é fixada entre 50 a 60%.

3.ARMAZENAMENTO E EMBALAGEM
O material está pronto para ser embalado e guardado quando começa a ficar levemente quebradiço. O teor de umidade ideal, após a secagem, deve ser de 5 a 10% para folhas e flores. Para cascas e raízes, esta umidade varia entre 12 e 20%.
o período de armazenagem deve ser o menor possível, para reduzir as perdas de princípios ativos. Preferencialmente, o local deve ser escuro, arejado e seco, sem acesso de insetos, roedores ou poeira.
o acondicionamento do material vai depender do volume produzido e do tempo que se pretende armazená-lo. Na literatura são encontradas recomendações aplicáveis a condições de clima temperado, como o uso de tonéis de madeira não aromática, que conservam o produto por muito tempo. Serão necessários estudos para avaliar os diversos tipos de embalagens e o período de conservação máximo.
Pequenas quantidades de plantas podem ser colocadas em potes de vidro ou sacos de polietileno ou polipropileno, que também parecem permitir boa conservação. O uso de sacos de juta tem sido utilizado a curto prazo. Em todos os casos não se recomenda colocar próximas as embalagens de espécies diferentes (principalmente as fortemente aromáticas) ou depositar diretamente sobre o piso (colocar sobre estrados próprios ou dependurar).
O material, antes de ser armazenado, deve ser inspecionado quanto à presença de insetos e fungos. Durante o armazenamento deve-se repetir com freqüência tais inspeções. No caso de ataque recomenda-se eliminar o material; não se aconselha o expurgo das instalações em presença das ervas, uma vez que não existe registro, para plantas medicinais, dos produtos normalmente utilizados nestas operações.

4 - DETERIORAÇÃO DAS DROGAS

Os fatores a serem levados em conta, com relação  à  deterioração das drogas são: teor de umidade, temperatura, luz e presença de oxigênio. Quando estas condições são adequadas, os organismos vivos (bactérias, mofo, aracnídeos e insetos) se multiplicarão rapidamente, utilizando a droga como fonte de nutrientes.

1.FATORES PRIMÁRIOS
 As drogas dessecadas ao ar contém ainda 10 a 12% de umidade e, em alguns casos, isso pode ser suficiente para ativar as enzimas presentes nas folhas e ocasionar a decomposição dos princípios ativos. O aumento da temperatura, em combinação com a umidade, pode acelerar a atividade enzimática. A temperatura elevada leva, logicamente, a uma perda dos componentes voláteis. A luz solar direta pode motivar a decomposição de certos constituintes, assim como a descoloração de folhas e flores. O oxigênio coadjuva a resinificação das essências e a rancificação dos óleos fixos.

2.ATAQUE DE MOFOS E BACTÉRIAS
Os mofos encontrados nas drogas são geralmente os mesmos que estão presentes nos produtos alimentícios armazenados inadequadamente. São comuns às espécies de Rhizopus, Mucor, Penicillium e Eurotium. A deterioração das drogas constitui só um aspecto da importância do mofo em Farmacognósia. O ataque das drogas por bactérias é de menor importância, salvo quando se trata de espécies cromogênicas ou quando se produzem efeitos, como a pulverização do algodão por ataque às fibras.

3.COLEÓPTEROS OU ESCARAVELHOS
São insetos que constituem a ordem mais ampla do reino animal com umas 250.000 espécies, das quais se tem encontrado perto de 600 espécies em produtos alimentícios ou em drogas armazenadas. Nem todos estes coleópteros utilizam os produtos armazenados propriamente ditos, sendo que podem ser encontrados na madeira das caixas de embalagem ou vivendo como depredadores. Os escaravelhos possuem um corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen. Na parte inferior do tórax têm 3 pares de patas, sendo que na parte secundária têm, geralmente, 2 asas posteriores membranosas. Possuem uma metamorfose completa, com as fases de ovo, larva, casulo e estado adulto e os coleópteros que constituem pragas nos produtos armazenados causam deterioração, tanto em estado adulto, como de larva. Entre as características que distinguem as larvas da maioria das espécies que atacam os alimentos e drogas vegetais, estão as partes mordedoras da boca e a cabeça, de cor mais escura que o resto do corpo.

4.LEPIDÓPTEROS
 Compreendem as traças e mariposas e, ainda que o número de espécies seja grande, só um número relativamente pequeno de traças produzem alterações nas drogas. Como no caso da traça do vestido, o dano é produzido pela larva, não pelo inseto maduro. No entanto, como as traças são extraordinariamente móveis e põem ovos, a infestação tende a estender-se rapidamente.
TRAÇAS PRODUTOS ATACADOS
Ephestia kuehniella Pimenta, cacau, algodão
Ephestia cautella Cacau
Ephestia elutella Cacau, tabaco, pétalas de rosa
Plodia interpunctella Levedura, canela
Tinea pellionella Pimentas, mostarda, gengibre, lírio de Florência, tabaco

5.ÁCAROS
 Os ácaros diferem dos verdadeiros insetos em que as formas adultas têm 8 patas e carecem de antenas. Deles, os Tyroglyphidae são muito menores que os insetos e só podem ser vistos com a ajuda de uma lupa. Caso haja ácaros em quantidade considerável, observar-se-á que o produto se move e vai se aplanando gradualmente.

6.CONTROLE DA INFESTAÇÃO
 A detecção, prevenção e erradicação da infestação por ácaros e insetos constitui um importante aspecto higiênico e econômico. As medidas preventivas eficazes compreendem: boa higiene nos armazéns (eliminação de desperdícios, velhos resíduos, materiais de embalagem e eliminação de fontes de infecção); controle eficaz de existência (inspeção periódica, rotação das mercadorias e reconhecimento precoce da infestação); ótimas condições de armazenamento e boa embalagem.
 Se o material for infestado, é preferível sacrificar uma pequena quantidade que expor outras mercadorias à contaminação. Após a eliminação de uma droga contaminada, plataformas, estantes, paredes e solos têm de ser cuidadosamente limpados e fumegados com um inseticida de contato. Os insetos presentes no ar são combatidos com aplicação semanal de piretrina ou piretróides sintéticos e o emprego de tiras de dicloretos de liberação lenta. Nas gretas ou rachaduras podem utilizar-se diversas formulações em forma de pó.
 A fumegação é o único meio prático para exterminar insetos e ácaros em grandes quantidades. Dados os possíveis perigos que isto possui, o trabalho deve ser realizado por profissionais, de acordo com a Ata 1974 sobre Sanidade e segurança no Trabalho. Antes que as drogas sejam posteriormente utilizadas, os fumegantes têm de ser totalmente eliminados, já que, se não for assim, podem constituir um perigo para a saúde.

5 - CONTROLE DE QUALIDADE

A valorização da droga que eventualmente entra no mercado é de considerável importância. Esta operação compreende a identificação do material e a determinação de sua qualidade, pureza e, se alterada, a natureza do adulterante. A adulteração deliberada é menos comum hoje que antigamente, mas a qualidade das drogas ainda deixa muito a desejar. A adulteração deliberada é susceptível de ser efetuada com produtos caros e com os que faltam em um dado momento. A diluição e a adulteração das drogas vendidas ilegalmente são práticas comuns.

1.ESTANDARTES
A autenticidade de uma droga se estabelece por referência à descrição da mesma, dada na Farmacopéia ou em outros tratados oficiais do país em questão. A qualidade e pureza requeridas vêm determinadas pelos estandartes ou padrões dados também na obra oficial de referência. Os que utilizam o presente livro provavelmente podem recorrer à European Pharmacopoeia (EP), vols. 1-3, à British Pharmacopoeia (BPP, 1998, o British Pharmaceutical Codex (BPC), 1979 e à United States Pharmacopoeia-National Formulary (USPXX/NFXV), 1980. Quase todas as drogas oficiais na EP são descritas atualmente pela BP.

2.AMOSTRAGEM
Para poder valorizar a droga antes de sua consignação tem de extrair uma amostra para sua análise. Deve haver um cuidado especial para assegurar que a amostra seja verdadeiramente representativa. Para grandes quantidades de drogas inteiras é necessário um método de amostragem diferente ao requerido para as drogas fragmentadas ou pulverizadas.

3.EXAME PRELIMINAR
No caso de drogas inteiras, as características macroscópicas e organolépticas são suficientes, em geral, para identificá-las. O aspecto global da amostra indica, freqüentemente, se é provável que esta cumpra especificações oficiais. Entretanto, as drogas podem cumprir com as descrições dadas na Farmacopéia e não ser de qualidade adequada, pois com freqüência é difícil descrever especificamente a deterioração das drogas devido a uma coleta, transporte ou armazenamentos defeituosos, ou pela alteração devido à idade. Nestes casos, o analista experiente poderá descobrir muito dos antecedentes da amostra, baseando em seu aspecto.
Se as folhas e estruturas similares são embaladas antes de dessecadas adequadamente, pode-se encontrar bastante material descolorido. Por outro lado, uma excessiva dessecação torna as folhas muito frágeis e causa a ruptura das mesmas no transporte. Algumas drogas são bastante susceptíveis à deterioração se houver umidade durante o transporte ou armazenamento. Em condições de umidade ambiental se desenvolve facilmente mofo sobre as drogas ricas em mucilagem. Também deve evitar o ataque de insetos.
O preço de certas drogas dependem muito de fatores como o tamanho e a cor, que não estão relacionados necessariamente com o valor terapêutico.

4.MATERIAIS ESTRANHOS
Está plenamente admitida a dificuldade de obter drogas vegetais em condições de completa pureza e a Farmacopéia contém especificações referentes às porcentagens permitidas de outras partes da planta ou de outras matérias orgânicas. Apesar disto, as drogas que contêm quantidades apreciáveis de materiais orgânicos estranhos, excrementos de animais, insetos ou mofo devem ser descartadas, ainda que a porcentagem destas substâncias sejam insuficientes para determinar a eliminação da droga a respeito do conteúdo de materiais estranhos.
No caso de drogas inteiras, uma quantidade pesada (25 a 500 g segundo o tipo de droga) de uma amostra tomada cuidadosamente, é estendida em capa fina sobre um papel. Separa-se, pesa-se a matéria estranha e registra-se a porcentagem.

5.CONTAMINAÇÃO MICROBIOLÓGICA
Para algumas drogas, a BP estabelece certos limites para determinados microorganismos, como a Escherichia coli e a Salmonella. Geralmente, os abastecedores têm de assegurar que, para drogas que têm de ser administradas por via interna, os limites de contaminação de bactérias e mofo são equivalentes aos que se aplicam aos gêneros alimentícios.

6.RESÍDUOS TÓXICOS
Podem apresentar-se nas drogas como resultado da aplicação de pesticidas durante o cultivo da droga e, posteriormente, devido à fumegação do produto armazenado. Os problemas e a natureza dos resíduos tóxicos são, essencialmente, os mesmos da indústria de alimentação e diversamente distribuídas se encontram regulamentos para estabelecer os limites destes resíduos nos alimentos, cosméticos e drogas.
Os resíduos tóxicos podem ser substancialmente reduzidos ou eliminados pelo extração dos componentes úteis da planta. Se tem demonstrado que o armazenamento a 30ºC reduz rapidamente os resíduos de óxido de etileno nos frutos de sene, a níveis toleráveis.

7.CONTEÚDO DE UMIDADE
A compra de drogas que contêm um  excesso de umidade não só é antieconômica, como também a uma temperatura adequada, a umidade pode provocar a ativação de enzimas e criar condições favoráveis para a proliferação de microorganismos. Como a maioria das drogas vegetais contém todos os elementos essenciais para a nutrição de mofo, insetos e ácaros, a deterioração pode ser muito rápida uma vez iniciada a infestação.
a) PERDA POR DESSECAÇÃO: a determinação da perda de peso por dessecação se encontra na EP, EB e USP. Ainda que a perda de peso nas amostras ensaiadas por este procedimento deva principalmente à água, também contribuem na perda de peso pequenas quantidades de outros produtos voláteis. Para drogas que contenham pequenas quantidades de materiais voláteis, pode-se utilizar a dessecação e se relaciona, assim mesmo, com o registro do peso. Tem utilidade quando se trabalha com um número considerável de amostras e quando se necessita de um registro contínuo da perda de peso com o tempo.
b) SEPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DA UMIDADE: os métodos de perda por dessecação podem ser mais específicos para a determinação da água mediante a separação e determinação da água obtida a partir de uma amostra. Isto pode ser realizado fazendo passar um gás inerte através da amostra aquecida e empregando uma coluna de absorção (específica para a água) para reter a água arrastada. Os métodos baseados na destilação têm sido muito utilizados para a determinação da umidade. A amostra a ser analisada é colocada em um balão com um solvente adequado e não miscível com a água (tolueno, xileno, tetracloreto de carbono), fragmentos de porcelana porosa e, na continuação, destila-se. Os métodos de cromatografia gasosa têm adquirido importância crescente na determinação da umidade, devido à sua especificidade e eficácia.
c) MÉTODOS QUÍMICOS: o método químico mais freqüentemente empregado para a determinação da água é provavelmente o procedimento de Karl Fischer, que é utilizado, não só na indústria farmacêutica, mas também nas de alimentação, químicas e petroquímicas. Também o emprega a BP, sendo especialmente aplicado em drogas de preço elevado e produtos químicos que contêm pequenas quantidades de umidade. O reativo consiste em uma dissolução de iodo, anidrido sulfuroso e piridina em metanol anidro. O reativo é colocado frente a uma amostra que contém água, produzindo-se por esta uma perda da cor pardo-escura. No ponto final, quando não existe mais água, persiste a cor do reativo.
d) MÉTODOS ESPECTROSCÓPICOS: a água absorve energia a diversos comprimentos de onda do espectro eletromagnético, feito que constitui uma base para sua determinação quantitativa. As medidas podem ser realizadas, tanto na região do infravermelho, como na do ultravioleta. Têm de estar ausentes substâncias que interfiram. O método é especialmente adequado para quantidades muito pequenas de água.

8.DETERMINAÇÃO DE MATÉRIAS EXTRATIVAS
A determinação das matérias extrativas hidrossolúveis ou álcool solúvel é utilizada como meio de valorização de drogas cujos componentes não podem ser determinados facilmente por outros procedimentos. Ainda que úteis como ensaios usuais, as determinações de matéria extrativa já não são requeridas como estandartes da Farmacopéia. Em certos casos, a extração da droga é por maceração; em outros, por um processo de extração contínua.

9.DETERMINAÇÃO DE CINZAS
Quando as drogas vegetais se incendeiam, deixam uma cinza inorgânica que, no caso de muitas drogas, varia entre limites amplos e, portanto, tem pouco valor para fins de tipificação. Em outros casos, o conteúdo em cinzas totais é importante e indica, em certa medida, o cuidado que se teve na preparação da droga. Na determinação das cinzas totais, o carbono deve queimar-se à temperatura mais baixa possível (450ºC), pois do contrário se perdem os cloretos alcalinos, voláteis a altas temperaturas. Se ainda existir carbono depois de aquecida à temperatura moderada, deve-se separar as cinzas hidrossolúveis e calcinar de novo o resíduo, como se descreve na BP. Em geral, as cinzas totais são compostas de carbonatos, fosfatos, silicatos e sílica. Para produzir uma cinza mais consistente, EP e BP utilizam a cinza sulfatada, que requer o tratamento da droga com ácido sulfúrico diluído antes de começar a ignição. Desta forma, todavia, os óxidos e carbonatos são convertidos em sulfatos e a ignição se realiza a uma temperatura mais elevada.
Se as cinzas totais são tratadas com ácido clorídrico diluído, pode-se determinar a porcentagem de cinzas insolúveis em ácidos. Estas são compostas sobretudo de sílica; uma quantidade elevada de cinzas insolúveis em ácido, em drogas como folha de sene, cravo, regaliz, valeriana e tragacanto, indica contaminação com terra.

10.DETERMINAÇÃO DE ÓLEOS ESSENCIAIS
Em muitas farmacopéias se prescrevem as porcentagens mínimas de essências que devem estar presentes em inúmeras drogas. Para determiná-las se emprega geralmente um método de destilação. O tempo requerido para a destilação completa da essência varia com a natureza da droga e seu gradiente de pulverização, mas geralmente são suficientes umas quatro horas.
As especificações das farmacopéias, a respeito do conteúdo do óleo essencial nas drogas pulverizadas, são inferiores às das drogas inteiras.

11.VALORES DE Rf
As farmacopéias estão empregando cada vez mais a cromatografia em camada delgada para comprovar a qualidade e a pureza. O valor Rf (razão entre a distância percorrida pelo produto e a distância percorrida pelo solvente) de um composto, determinado em condições específicas, é característico e pode empregar-se como ajuda para sua identificação. Os valores Rf variam de 0,0 a 1,00. A intensidade das manchas cromatográficas visualizadas podem ser comparadas diretamente, o que permite eliminar drogas de baixa qualidade ou adulteradas.

12.ÍNDICE DE REFRAÇÃO
O índice de refração de uma substância é a relação entre a velocidade da luz no ar e a velocidade na substância em ensaio. Para luz de determinado comprimento de onda, o índice de refração de um produto é dado pelo seno do ângulo de incidência dividido pelo seno do ângulo de refração. O índice de refração varia com a temperatura, sendo as determinações da Farmacopéia realizadas a 20ºC. As determinações do índice de refração são especialmente úteis para o estabelecimento da pureza das essências e óleos fixos e muitos de seus valores constam na EP, BP, BPC e outras farmacopéias.

13.DETERMINAÇÕES QUÍMICAS QUANTITATIVAS
Várias determinações químicas quantitativas (índice de ácido, de iodo, de saponificação, de éster, material insaponificável, índice de acetila, acidez volátil), aplicam-se principalmente aos óleos fixos. Algumas destas determinações são também úteis na valorização de resinas, bálsamos e gomas.

6 - AS ORIGENS DO USO POPULAR DE PLANTAS MEDICINAIS

O homem primitivo, certamente, experimentava as plantas do seu ambiente, selecionando algumas para sua alimentação, rejeitando outras por serem prejudiciais ou tóxicas e transmitindo a experiência acumulada. Da mesma maneira, deve ter experimentado os vegetais para aliviar seus males ou mesmo seu tédio. Este método de tentativa e erro ou forma empírica de aquisição de conhecimentos não deve ser desprezado; basta lembrar que assim surgiram descobertas fundamentais para a sobrevivência do homem, como o cultivo do trigo, milho, arroz, etc.
No caso de plantas com propriedades terapêuticas, estas foram, na sua grande maioria, descobertas empiricamente. Com base nestes conhecimentos acumulados pela medicina popular, foram desenvolvidos alguns dos mais valiosos medicamentos utilizados na medicina científica, como os digitálicos, a quinina, a morfina, a atropina, etc. Também o uso de bebidas estimulantes, como o café, o chá, a erva-mate, a cola e o cacau, surgiu em culturas diversas, antes que se soubesse do seu teor em metil-xantinas (cafeína, teobromina e teofilina) e da ação estimulante destas sobre o sistema nervoso central.
A utilização de plantas medicinais no Brasil tem origem na cultura dos diversos grupos indígenas que habitavam o país. Alguns exemplos são a ipecacuanha (Cephaelis ipecacuanha (Brot.)A. Rich.), o jaborandi (Pilocarpus spp.), o guaraná (Paullinia cupana H.B.K.), o taiuiá (Cayaponia spp.), a erva-de-bugre (Casearia silvestris Swartz.), etc. Muitas outras foram trazidas pelos europeus, como a camomila (Matricaria chamomilla L.), a melissa (Melissa officinalis L.), a malva (Malva sylvestris L.), o funcho (Foeniculum vulgare Mill.); ou pelos africanos, como a erva-guiné (Petiveria alliacea L.), e o melão-de-são-caetano (Momordica charantia L.); outras ainda são provenientes de outros países sul-americanos, como o boldo (Peumus boldus Mol.) e a quilaia (Quillaja saponaria Mol.).

1.AS CONTRIBUIÇÕES DA BOTÂNICA, DA QUÍMICA E DA FARMACOLOGIA
A botânica, a química e a farmacologia abrangem conhecimentos indispensáveis para a utilização segura de plantas medicinais. É função dos botânicos providenciar a identificação correta e a descrição da morfologia das espécies vegetais, além da compilação de dados em herbários, onde são obtidas informações sobre a distribuição geográfica e a fenologia das mesmas. Os farmacêuticos e os químicos especializados em plantas extraem, isolam, purificam e identificam os componentes químicos (princípios ativos). Os farmacologistas de produtos naturais verificam as ações biológicas ou atividades farmacológicas desses princípios ativos e/ou de extratos vegetais, bem como avaliam a sua eventual toxicidade. Somando-se a essas importantes contribuições, desempenham papel fundamental aqueles profissionais que atuam nas áreas de Etnobotânica e Etnofarmacologia, recolhendo dados junto à população sobre a utilização de plantas medicinais. Estes dados incluem informações sobre a planta, período ideal de coleta, parte da planta utilizada, formas de utilização e preparação, dose preconizada, indicações terapêuticas e todas as outras informações sobre sua utilização.
Este trabalho adquire importância fundamental em vista do caráter dinâmico da medicina popular e do desaparecimento de espécies vegetais e de práticas culturais; é necessário, portanto, registrar todas as informações possíveis sobre o emprego de plantas medicinais.

2.CONSUMO DE PLANTAS MEDICINAIS
Popularmente, as plantas medicinais de pequeno porte são conhecidas por ervas e geralmente são utilizadas inteiras; para plantas maiores (arbustos, árvores, etc.) é comum a distinção de uma parte específica a ser utilizada (raízes, folhas, frutos, sementes, flores, etc.). Esta parte é geralmente secada à sombra, podendo ser picada grosseiramente (planta rasurada) e utilizada em preparações diversas.
Na medicina popular, as preparações usuais de plantas medicinais são as seguintes:
a) CHÁS: esta forma de utilização de plantas medicinais é a mais apreciada pela população. Os chás, além de seu valor medicinal específico, fornecem água ao organismo, hidratando suas células, facilitando a eliminação de substâncias tóxicas, favorecendo o controle de temperatura corporal e auxiliando na digestão dos alimentos. Os chás podem ser preparados por:
MACERAÇÃO: a parte utilizada da planta, preferentemente picada, é deixada em contato com um líquido (água ou álcool), a frio, durante um ou mais dias. A princípio, não se deve utilizar a planta sob forma de pó, pois é muito provável a formação de grumos. Coar antes de tomar.
INFUSÃO: a parte utilizada da planta, preferentemente picada, é colocada em um recipiente, derramando-se então água fervente sobre ela. Tampar por 5 a 10 minutos. Coar e tomar ainda quente. Desta maneira, são geralmente preparados chás de flores e/ou folhas, e/ou frutos carnosos. Os infusos são preparados para uso imediato.
DECOCÇÃO: a parte utilizada da planta, preferentemente picada, é colocada em água fria, fervendo-se por 5 a 10 minutos, contados a partir do momento do início da fervura. Coar e tomar ainda quente. Desta maneira, são geralmente preparados chás de raízes e/ou caules, e/ou sementes, e/ou frutos secos e/ou cascas de raízes e caules (partes duras do vegetal). Os decoctos também são preparados para uso imediato.
b) ALCOOLATURAS: são preparações líquidas obtidas deixando-se a planta fresca ou seca em contato com misturas variáveis de água e álcool, à temperatura ambiente. As alcoolaturas podem ser utilizadas dissolvendo-se determinado número de gotas em água para a ingestão, geralmente antes das refeições. É comum utilizá-las também, externamente, para fricções e compressas.
c) XAROPES: são preparações líquidas açucaradas e utilizadas, freqüentemente, por crianças ou pessoas de paladar delicado. Os extratos vegetais têm, geralmente, sabor amargo e o açúcar mascara este gosto, facilitando a ingestão. A maneira mais comum de prepará-los é colocar 50 a 100g de planta fresca ou mistura de plantas frescas em 1 litro de água, ferver por 5 a 10 minutos e deixar em repouso por dois a três dias. Coar e, para cada litro, adicionar aproximadamente 250g de açúcar, mexendo bem até dissolver. Os xaropes são especialmente apreciados no tratamento de tosses, catarros, congestão de mucosas, etc.
d) GARRAFADAS: são preparações elaboradas com várias plantas medicinais, cujo veículo é geralmente aguardente ou vinho branco e raramente água, onde podem ser também acrescentados produtos de origem animal e mineral. Depois de um tempo variável de repouso, as preparações podem ser utilizadas, mas sem serem filtradas.
e) COMPRESSAS: a parte utilizada da planta é colocada para ferver em água, por 5 a 10 minutos. Depois de coar, embeber uma gaze ou algodão com o líquido, torcer para retirar o excesso e colocar ainda quente sobre a área afetada. Também são utilizadas compressas frias preparadas com as alcoolaturas. Naturalmente, o algodão ou a gaze devem estar completamente limpos.
f) BANHOS: os banhos refrescam, estimulam a circulação, limpam a pele e ajudam a relaxar a musculatura tensa ou cansada, de acordo com as propriedades atribuídas à planta medicinal utilizada. Prepara-se um chá com determinado vegetal (por maceração, infusão ou decocção) e mistura-se na água do banho, juntamente com um pouco de sal grosso (sal marinho).
g) CATAPLASMAS: são preparações elaboradas com plantas medicinais picadas ou reduzidas a pó e misturadas com água, vinho ou leite e farinha de mandioca ou fubá. Esta mistura é aquecida, colocada entre as faces de um pano ou gaze e utilizada ainda quente. Destinam-se à aplicação sobre a pele, preferentemente intacta, não lesada.

Industrialmente, é muito comum a utilização de plantas medicinais moídas, sob as formas de pó, saquinhos, cápsulas, comprimidos, etc. Estas formas apresentam algumas vantagens quanto à manipulação, estocagem, dosagem e administração. Existem ainda outras formas farmacêuticas que podem ser elaboradas com plantas medicinais (extratos fluidos, elixires, pomadas, drágeas, colírios, cremes, loções, tinturas, etc.); estas exigem técnicas que necessitam de aparelhagem específica e conhecimentos científico e técnico no âmbito farmacêutico, podendo ser manipuladas em farmácias e/ou laboratórios industriais, por profissionais competentes.

3.PROBLEMAS MAIS COMUNS NA UTILIZAÇÃO INDEVIDA DE PLANTAS MEDICINAIS
Muito se tem comentado atualmente sobre os efeitos colaterais ou indesejáveis provocados por medicamentos sintéticos. As plantas medicinais e os produtos fitoterápicos têm sido, muitas vezes, propagandeados e divulgados pelos meios de comunicação, como um recurso terapêutico alternativo, isento de efeitos indesejáveis e até mesmo desprovidos de qualquer toxicidade ou contra-indicações. No entanto, os conhecimentos empírico (medicina popular) e científico negam estas informações. O mito de que o que é natural não faz mal é portanto uma inverdade insustentável. Para exemplificar, abaixo contém uma listagem de algumas plantas medicinais muito utilizadas e que, dependendo das circunstâncias e das quantidades empregadas, podem causar danos à saúde:

a) PLANTAS QUE PODEM CAUSAR DANOS AO FÍGADO:
confrei ou consólida (Symphytum officinale L.)
cambará ou camará (Lantana camara L.)
sassafrás ou canela-sassafrás (Ocotea pretiosa (Nees) Mez.)
maria-mole ou flor-das-almas (Senecio brasiliensis (Spreng.) Less.) 
b) PLANTAS QUE PODEM CAUSAR IRRITAÇÃO GASTROINTESTINAL:
jurubeba (Solanum paniculatum L.)
arnica (Arnica montana L.)
ipeca (Cephaelis ipecacuanha (Brot.) A. Rich.)*
umbu (Phytolacca dioica L.)
c) PLANTAS QUE PODEM AFETAR O SISTEMA NERVOSO CENTRAL:
cavalinha, cola-de-cavalo ou rabo-de-rato (Equisetum spp.)
losna (Artemisia absinthium L.)
erva-de-santa-maria ou mastruço (Chenopodium ambrosioides L.)
trombeteira (Datura suaveolens Humb. & Bonpl. ex Willd.)
d) PLANTAS QUE PODEM PROVOCAR DANOS NA PELE:
arnica (Arnica montana L.) em doses altas (uso externo) - vesicante
folhas de figo (Ficus carica L.) e figueirilha ou carapiá (Dorstenia brasiliensis Lam.) – queimaduras sérias
mama-cadela (Brosimum gaudichaudii Trecul) – dermatites de contato
e) PLANTAS QUE PODEM CAUSAR DIARRÉIAS GRAVES, QUANDO USADAS DE MODO INCORRETO:
babosas (Aloe spp.)
taiuiá (Cayaponia spp.)
sene (Cassia acutifolia Del., C. angustifolia Vahl.)
cáscara-sagrada (Rhamnus purshiana DC.)
ruibarbo (Rheum palmatum L.)
f) PLANTAS QUE PODEM CAUSAR MORTE:
mamona (Ricinus communis L.)
leandro ou espirradeira (Nerium oleander L.)
maria-mole (Senecio brasiliensis (Spreng.) Less.)

4.RECOMENDAÇÕES ÚTEIS PARA A UTILIZAÇÃO
Utilizar plantas conhecidas e não de identidade duvidosa.
Nunca coletar plantas medicinais junto a locais que possam ter recebido agrotóxicos em geral.
Nunca coletar plantas medicinais que crescem à beira de lagos, lagoas e rios poluídos.
Nunca coletar plantas medicinais à beira de estradas, pois os gases que saem dos canos de descarga dos veículos podem conter substâncias tóxicas que se depositam na vegetação.
As plantas medicinais devem ser secadas à sombra, em ambiente arejado, por alguns dias (até tornarem-se quebradiças), antes de serem utilizadas.
Após a secagem, guardar em vidro fechado, ao abrigo da luz. Colocar o nome da planta e a data de coleta em um rótulo, para evitar problemas. Plantas armazenadas por longos períodos perdem seus efeitos terapêuticos.
Verificar o estado de conservação (umidade, mofo, insetos, etc.) da planta medicinal a ser adquirida. Habituar-se a adquirir plantas medicinais de fornecedores confiáveis.
Evitar o uso de misturas de plantas medicinais. Nem sempre o processo de preparação mais indicado é o mesmo para plantas diferentes e a combinação pode resultar em efeitos imprevisíveis.
Não utilizar plantas medicinais durante a gravidez, a não ser sob orientação médica. Existem plantas que podem causar sérios problemas ao bebê e à mãe. Por exemplo, as babosas quando ingeridas podem provocar aumento da irrigação sangüínea na região do baixo ventre e estimular contrações da musculatura lisa uterina. Outras plantas, como a arruda e a salsa, também podem comprometer a saúde da mãe e do feto.
Evitar a utilização de chás laxantes e/ou diuréticos para emagrecer.

7 - CONCLUSÃO
O conhecimento profundo da maneira correta de se manipular uma planta medicinal é essencial às pessoas que têm preferência em consumir produtos naturais. A exploração predatória de algumas plantas consideradas “milagrosas” pode colocá-las em risco de extinção quando não se tem preocupação com o cultivo ou com a preservação da planta.
Todos os processos de cuidados com as plantas medicinais foram analisados, desde o local onde devem ser plantadas, passando pelo preparo do solo, adubação, controle de pragas e doenças, colheita, métodos de secagem, armazenamento e embalagem, riscos no consumo, até como se evitar a deterioração destas drogas. Assim, pôde-se avaliar quantas etapas são necessárias para acarretar a existência de plantas próprias ao consumo, isentas de problemas à saúde.
Por fim, antes de se utilizar um produto natural é preciso, acima de tudo, conhecer o seu verdadeiro efeito ao organismo, para que uma planta inofensiva não retire o que o ser humano possui de mais precioso: a vida.

8 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
htpp://www.cpqba.unicamp.br/plantas medicinais e aromáticas
EVANS, W. C. 1991. Farmacognosia. (13ª Ed.). Madrid: Editora interamericana – McGraw-Hill
SIMÕES, C. M. O. 1986. Plantas da medicina popular no Rio Grande do Sul. (3ª Ed.). Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS.


By Zulmiro Fonseca Google +